Thursday, December 08, 2005

EPÍLOGO Imagine

“ Se eu não for por mim ...quem será?
Mas, se eu for só por mim ...o que serei eu?
E se não for agora, então ...quando? ”
rabino Hillel [1]







'Em português' (ao modo imperativo) ou 'em inglês' (ao modo transitivo ou intransitivo) ou ainda, seja lá a que modo for (tanto faz!), o título deste Epílogo é, também, uma referência à conhecida canção de John Lennon, personagem sobre o qual haveremos de nos deter mais adiante.
Embora seja possível derivar os diversos significados da palavra 'imagem' a partir da palavra latina 'imago', ao optar pela palavra 'imagine' como título final deste trabalho, o fiz pensando no significado (mais amplo) que lhe atribuíam os gregos clássicos: eicvn =eikon (lat. icon)= 'do mesmo modo'; 'ser semelhante'; 'parecer-se a'; 'semelhança'; 'verossímil '; 'provável '...
Penso que neste sentido (i.e, direção), melhor e desde já será possível revelar ao leitor o conteúdo essencial da argumentação final deste trabalho: a sutil 'imagem única', presente nos significados (i.e, espaços) expressos no título e na epígrafe que o precede.
No afã de responder à primeira pergunta formulada na mencionada epígrafe, "-Deus é por nós! " poderão argüir muitos dos que se julgam feitos (mais do que outros) à imagem e semelhança d'Aquele com Quem julgam privar de especial e particular intimidade.
Tá. Pode ser. Mas... tal consciência (entre tantos) não a possui o rabino?
Então, se não está a oferecer uma 'dica' para que os corruptos brasileiros possam contribuir com uma melhor distribuição da renda nacional sem precisar abandonar o exercício da atividade que secularmente os caracteriza: ?que está a fazer um rabino em um trabalho que se propõe a oferecer (mais uma) reflexão sobre a identidade brasileira?
Bem... sobre o quê fazer e o quê não-fazer relativo à identidade, penso que podemos aprender bastante com tudo aquilo que a milenar consciência judaica foi capaz de, até o presente momento, nos revelar a respeito.
E é impossível debruçar-se sobre tal consciência sem deixar de ver, nela, refletida uma imagem. Poderosa imagem.
Acredito que o rabino Hillel, ao formular as questões aqui apresentadas, de modo algum tenha se 'esquecido' do "Deus de Abraahão". Ao contrário: formulou-as dentro dos mesmos princípios apresentados pela Consciência que a Moisés revelou-se.
Como é natural ao humano (e como, até hoje, estamos procurando fazer, nós brasileiros) tentando entender 'a coisa toda', quando sentiu que chegara a chance de fazê-lo, Moisés perguntou a Javé:
"-Quem é você?"
Fico a imaginar a (eventual) perplexidade de Moisés ao ouvir como resposta:
"- Eu sou Eu sou." (ou "-Eu sou Aquele Que É." ou "-Eu sou O Que É.")[2]
Uma 'referência circular' diria o Excel.
E talvez o seja. A saber.
Pode ser que Moisés tenha ficado um pouco frustrado, ao descer da montanha levando para seu povo uma resposta que (para todos nós, costumeira mente ), espera-se, seja mais objetiva.
Entretanto (se de fato incomodado ficou) pudesse Moisés ter mantido contato com seus pares chineses e hindus, teria encontrado consolo ao descobrir que tal 'forma evasiva' não era uma particularidade da Divindade que acreditava única, posto que, sobre Esta, dos chineses haveria de ouvir "O Tao que pode ser pronunciado não é o Tao eterno. O nome que pode ser proferido não é o Nome eterno" [3]; e dos hindus "Estando em frente a você Sou visto diretamente. Não existe outra maneira. [4] (...) O Senhor Supremo mora no coração de todos os seres e de lá dirige sua caminhada [5]"
Pudesse ter ido mais longe, na brasileira parte que nos toca Moisés ficaria sabendo que, do mesmo modo, para os índios Guaranis "o ato da nomeação é a manifestação da parte céu de um ser na parte terra"... [6]
Agora... perplexo mesmo, acho que Moisés haveria de ficar diante das concepções de outro hindu: Buda, para quem - sem discriminar entre O Certo e O Errado [7], não haveria Divindade alguma senão a "rede feita com inumeráveis malhas interligadas, tendo cada malha o seu lugar e responsabilidade em relação às outras." [8]
Acredito que tais e tamanhas 'coisas' tenham chegado (natural e intuitiva mente) ao alcance da consciência do rabino Hillel, cujas indagações acabaram por (sem querer, é claro) propiciar um belíssimo e profundo mote para a conclusão da proposta contida neste trabalho.
A partir de um homem inequivocamente religioso, as considerações de 'ordem psicológica' implícitas nas palavras do rabino Hillel vem a calhar ao substrato junguiano sobre o qual tenho procurado assentar alguns fundamentos deste trabalho, uma vez que -a despeito de muitas vezes não evitar de revelar minhas crenças pessoais - ao abordar temas que tocam na delicadíssima esfera da 'religiosidade', não tenho a intenção de fazê-lo com outra perspectiva senão a que, dentro de minhas limitações, sou capaz de tomar emprestado de Jung, a saber: “Não me refiro a Deus enquanto realidade metafísica, sobre cuja manifestação eu não me sinto capacitado para emitir juízos a respeito. Esse trabalho deixo para aqueles que crêem possuir o privilégio de interpretar-Lhe a Vontade e os Desígnios. Falo de Deus como uma realidade psíquica, inegavelmente presente na mente humana. [9] (...) E por isso me acusam de misticismo. Contudo, não sou responsável pelo fato de o homem espontaneamente ter desenvolvido, sempre e em toda parte, uma função religiosa e que, por isso, a psique humana está imbuída e trançada de sentimentos e idéias religiosos desde os tempos imemoriais. Quem não enxerga este aspecto da psique humana é cego, e quem quiser recusá-lo ou explicá-lo racionalmente não tem senso de realidade. (...). [10]”

O conceito do Si-mesmo (ou Self) como ponto-de-partida da Criação (ou de 'tudo que existe'), parece ser uma noção milenar da mais remota consciência hindu que, talvez, as guerras e o comércio tenham espalhado a outros lugares durante a Antigüidade.
À ação de imaginar, em geral, encontra-se associado o conceito de utopia.
Ao observarmos os dois radicais que compõem esta palavra de origem grega (outopia), deparamo-nos com algo muito interessante: 'topos '= topos, significa lugar; e 'ou'=ou, significa ‘de si ’ e, também, 'nenhum'.
De tal modo que, assim parecia pretender a consciência grega clássica, o 'lugar nenhum' a que nos conduz a utopia, outro não é senão o 'lugar de nós-mesmos'.
E aqui temos uma sutileza semântica.
Embora a consciência contemporânea esteja a nos sugerir que a 'quimera'; a 'ilusão'; o 'sonho' e etc, sejam estes (incerta mente) o 'lugar nenhum' de todas as utopias, não existem motivos razoáveis para desconsiderarmos a possibilidade de que utopia seja, de fato, acreditar que algo possa se tornar real em outro lugar sem que, antes, tenha sido realizado no lugar do Si mesmo (que para os hindus é o coração).

É impossível tentar refletir sobre a 'identidade brasileira' sem antes dedicarmos alguma reflexão sobre a 'identidade do nosso tempo'.
E sem que, antes, possamos refletir um pouco sobre nossa própria identidade individual, de nada adiantará refletir sobre coisa alguma.
Porém, uma das características a compor a 'identidade do nosso tempo' me parece ser, lógica e precisamente, a dissolução (voluntária e consciente) de alguns conceitos de suma importância para o processo de auto-reflexão. Entre estes conceitos, estão aqueles formulados pela Religião e suas filhas: a Filosofia e a Psicologia.
É compreensível que um sistema apoiado na produção&consumo sem limite não tenha apreço por quaisquer ideologias capazes de contrapor-lhe uma noção de limite.
Desvincular da psique e do corpo qualquer potencialidade de 'cura e/ou bem estar por si mesmo', não é só contribuir para a criação de necessidades a incentivar as ações de compra e venda sem as quais não há mercado.
É compreensível e aceitável que se consuma para viver. Preocupante é que se viva para consumir.
Compreensível e aceitável, também, é que ambicionemos o desenvolvimento. 'Pirante' é que se ambicione "...ganhar a dianteira sempre, porque é impossível mantê-la." [11]
Surpreendente talvez para muitos (mais jovens), será descobrir que houve um período recente em que à consciência de algumas sociedades ocidentais afluentes, começaram a emergir conceitos que, sempre caros à 'iluminada' mentalidade oriental, haviam se tornado estranhos à 'iluminista' razão ocidental, sobretudo a partir do século 18.
No final dos anos 60, ao comentar a respeito da mansão onde John Lennon morava com a família, o autor de uma biografia autorizada dos Beatles escreveu: (sobre os quartos) “ ...são espaçosos, iluminados e luxuosamente decorados (... ) sofás, tapetes, cortinas, tudo com um aspecto de ‘novo’ e ainda ‘não-usado’, tal qual um cenário de Hollywood. (...) Ninguém parece utilizá-los, embora eles sejam rigorosamente limpos e espanados. Apenas anda-se por eles para, em seguida, sair. Toda a vida familiar transcorre em um pequeno aposento retangular nos fundos da casa, que possui uma parede envidraçada com vistas para as árvores e o jardim mais além. John, sua esposa Cynthia e o filho deles, Julian, passam a maior parte do tempo entre este aposento e a cozinha. A opulência ao redor não parece ter coisa alguma a haver com eles.” [12]
E de fato não tinha. Para John, ao menos.
Algumas linhas adiante, na mencionada biografia, John faz um comentário a respeito da 'tolice' que lhe pareceu ter sido gastar uma fortuna em uma mansão da qual lhe bastavam apenas alguns metros quadrados. [13]
Alguns anos mais, em sua vida, John irá compor 'Imagine', a canção símbolo de uma época cuja consciência nascente o 'reaganismo' e o 'tatcherismo' cuidariam de abortar, revivendo os modos da reação à Revolução Francesa.

Tudo que pode ser produzido ?deve ser produzido?
'Sim' ou 'Não' ?
Submetida esta questão a um hipotético plebiscito na Europa do século 17 -entusiasmada consigo mesma a partir da recém-descoberta de que 'pensava logo existia' - é possível arriscar, com grande chance de acerto, o palpite de que o 'Sim' ganharia por larga margem. Em todas as classes.
Sobretudo por entre os puritanos cristãos-enterpreneurs anglo-holandeses que (enviesada mente) viam na Bíblia a sanção divina para suas coloniais e expansionistas aspirações mercantis: “Quanto a vós (...) propagai-vos pela terra e dominai-a.” [14]
Contudo, menos arriscada, acho, seria uma aposta na contínua vitória do 'Sim' durante os próximos dois séculos e meio: o Iluminista 18; o Industrial 19 e metade do, digamos... Tecnológico? 20.
Porém, tenho certeza, a partir da segunda metade do século 20 o 'Sim' começaria a perder significativos votos.
Não em todas as classes. Mas, sobretudo, por entre os 'órfãos do Pai' cuja autoridade (já em declínio acentuado desde os primeiros momentos da Revolução Industrial) entrara em colapso após o término do conflito bélico iniciado em 1914 e encerrado em 1945. [15]
Por 'órfãos do Pai' pretendo designar os 'filhos' da chamada 'contracultura', o já histórico movimento que, a partir dos Estados Unidos, disseminou-se pelo Ocidente durante os anos 60 e sobre o qual possui singular percepção o físico Fritjof Capra: " (...) esse período representa não tanto uma década quanto um estado de consciência, caracterizado pela expansão transpessoal, questionamento da autoridade, senso de possibilidade das coisas e vivência da beleza sensual e do espírito comunitário (...) contraste entre a estonteante beleza da natureza e a feiúra mesquinha da civilização (...)" [16]
Penso que a atual 'consciência ecológica' contemporânea é um dos desenvolvimentos positivos derivados do "estado de consciência" mencionado por Capra.
E daí, talvez, resulte o voto pelo "não" que, relativo à questão acima, registra o cientista e escritor Arthur C. Clarke no prefácio ao livro 'Macrotransição -o desafio para o terceiro milênio' [17], de Ervin Laszlo (fundador e presidente do Clube de Budapeste [18]).
Mas fornecer subsídios que possam auxiliar a quem quiser refletir sobre a proposição acima (de Clarke) é apenas mais um dos objetivos secundários deste trabalho.
Assim, sem deles descuidar, voltemo-nos para o principal.
Antes que se possa clarear o significado da 'orfandade paterna' acima mencionada, se impõem mais algumas e breves considerações a respeito da 'contracultura', expressão que em si mesma encerra a rebeldia que a caracterizou.
O psicanalista Luigi Zoja -em abrangente análise histórico-psíquica publicada no livro 'O Pai -História e psicologia de uma espécie em extinção' - ao comentar a saga da família Joad em 'Vinhas da Ira' (1939) de John Steinbeck [19], nos fornece indícios a partir dos quais é possível identificarmos a origem da 'contracultura' nos Estados Unidos: a Grande Depressão, a corroer as bases, até então tidas como inabaláveis, da cultura burguesa-puritana estadunidense.
E, no âmbito de um proletariado pauperizado mundialmente, a débâcle econômica (e moral) iniciada a partir da explosão (em 1929) da "irracional exuberância do mercado" não fez, apenas, conferir indignidade a 'o pai' mas permitiu, também, sua substituição -na Europa, por totalitários e fascistas padrastos ou "pais terríveis" e, nos Estados Unidos, por criminosos 'padrinhos'. [20]
Some-se a isto a 'ausência' (prolongada ou definitiva) que a guerra impôs a este mesmo 'pai' (já 'indigno') e - pela mesma via que leva às gangs ou às torcidas uniformizadas - não será difícil entender, entre outras coisas, porque para Bob Dylan 'a resposta' estava 'no ar' ou porque os 'street fighting men' Mick Jagger e Keith Richard não conseguiam obter 'satisfaction'.
A 'libertação' implícita no estilo do rock'n roll é um legado fornecido por quem 'entendia (e continua entendendo) do assunto': os negros.
(Observe-se que à falta de um maestro, ou mestre-senhor, no jazz 'a coisa toda é meio improvisada'.)
Se uma significativa parcela da juventude européia já havia esgotado sua revolta filiando-se às gangs de Mussolini e Hitler, durante os anos 60 o temor ante a aparentemente interminável continuidade de uma catástrofe que já se estendera até a Coréia -e agora consumia vidas no Vietnã - levou os jovens estadunidenses a adotarem a postura de "paz e amor" que, prenunciando a Era de Aquário, os fez sugerir a todos que colocassem "flores no cabelo, caso decidissem ir para São Francisco".
'-Mas o sonho acabou! ', ouço meu liberal Fukuyama parafrasear.
Houvesse John Lennon dito isto (1970) depois de dizer "-Imagine! " (1971), o título deste epílogo haveria de ser outro.
Estar encerrando este trabalho no momento em que o assassinato de John completa exatos 25 anos, ao contrário do que possa parecer, resulta de uma simples (e não se pode dizer 'feliz') coincidência.
Durante o período em que refletia sobre o sentido (i.e, direção) destas conclusões finais, me ocorreu ouvir a canção 'Mother', na qual John, clamando pela presença dos pais, diz algo que me pareceu - neste momento - por demais pertinente à questão da dissociada identidade brasileira da qual, aqui, estou a me ocupar: "-Pai, você me teve. Mas eu, nunca o tive. Mamãe não vá embora. Papai volte pra casa."
Soubessem, essencialmente, expressar sua angústia, acredito que não o fariam de modo diferente nenhuma das milhares de miseráveis crianças afro-luso-tupinambás atualmente em exibição circense nas ruas e cruzamentos das grandes cidades brasileiras.
E se de John tomo emprestado 'Mother' para, aqui, melhor ilustrar o propósito deste trabalho, relativo à sua conclusão o mesmo farei com 'Imagine'.

À semelhança do que já ocorrera na Europa do final do século 19, quando as primeiras traduções dos 'Upanishads '[21] haveriam de influenciar a produção filosófica e literária locais, observe-se que uma das propostas subjacentes ao movimento da 'contracultura' dos anos 60 era (mais uma vez) fazer aquietar-se o extrovertido dia-a-dia do mundo Ocidental, mediante a adoção de modos e conceitos introspectivos caros ao 'ser Oriental'.
Entretanto, observemos, durante este período o desejo coletivo da Cultura ocidental dominante encontrava-se constelado no pouco introvertido refrão da -emblemática de seu tempo - peça 'Hair': "- Deixe o Sol brilhar! ".
Neste particular, levando-se em conta a... poesia?... extravagância?... de 'Ocidente' significar 'sol poente', não chega a surpreender que o desejado 'brilho' do iluminista Sol de 'Hair' esteja, atual (e intensa mente) sendo 'cheirado'.
Mesmo em seus eventuais momentos de mais profundo desprezo pelo "revolucionamento permanente da produção, o abalo contínuo de todas categorias sociais, a insegurança e a agitação sempiternas [que] distinguem a época burguesa de todas as precedentes" [22], não sei se algum dia Marx imaginou que o ópio pudesse se tornar a religião do povo.
Fato é que em 1968, no auge da 'contracultura', e em prólogo à edição estadunidense do livro ‘O Processo Civilizatório’ de Darcy Ribeiro, Betty J. Meggers escreveu:
"…guerras, rebeliões, golpes, guerrilhas, greves, guetos, enormes diferenças no acesso às vantagens econômicas e educativas, difundem seus efeitos dilaceradores através de toda a ordem social. Como se isso não fosse suficiente, o cidadão comum é acossado pelo balanço de pagamentos desfavorável, drogas, alienação, aumento populacional acelerado, remodelagem arbitrária da superfície terrestre com o desvio de rios, aplainamento de montanhas, derrubada de florestas, abertura de túneis sob a terra e a água, capeamento do solo com cimento e asfalto…Mesmo os conservadores se apercebem da ruína iminente, mas os interesses comerciais lutam cada vez mais por uma oportunidade de auferir lucros. …medidas de força só podem suprimir os sintomas, sem alterar suas causas… e o desespero cresce à medida que se torna evidente a inoperância dos remédios policiais e militares para os males sociais do nosso tempo. Só a compreensão é o primeiro passo para a ação racional.… só combinando outras perspectivas com a nossa própria, poderemos distinguir entre a verdade e a distorção e alcançar, finalmente, uma compreensão realista do processo civilizatório. A conquista de tal percepção é crucial para a existência humana." [23]
Que a 'palavra dos deuses' possa ser eterna é uma questão de fé aceitável.
Mas que as já quarentonas palavras da senhora Meggers continuem atuais neste início de século parece ser uma questão de... fé inaceitável. Na falta de limites. E de tal modo que, olhando para as circunstâncias sócio-ambientais contemporâneas, dificilmente conseguimos escapar de impressões, as mais diversas, que nos levam a concluir: "O pesadelo começou."
Por 'circunstâncias sócio-ambientais', não pretendo referir-me apenas aos aspectos econômicos e geográficos que nos rodeiam mas, também, ao conteúdo a emergir das Artes contemporâneas em geral, sejam estas a Música, a Literatura, o Cinema, e etc. A Arquitetura inclusive. [24]
“Não herdamos a Vida de nossos avós mas, a tomamos de empréstimo de nossos netos”. Esta é uma reflexão da consciência indígena apropriada para ilustrar o vínculo existente entre o que podemos chamar de 'noção de limites' e a 'paternidade'.
Sei que, além de polêmica, a discussão destes dois conceitos é por demais ampla; e aventurar-se mais adiante em seus caminhos transcende não só a minha capacidade intelectual mas, também, aos limites que estabeleci para este trabalho.
A figura do 'pai', aqui, interessa-me sobre o ponto-de-vista de nossa História que (macunaímica mente), sem os tê-lo a contento até hoje, continua a produzir (e portanto a esperar) toda sorte de ' pais salvadores da pátria', sejam eles os 'Dom Sebastiões'; os 'conselheiros'; os 'bom velhinhos'; os 'homens fortes' e 'coronéis e generais' de todas as ditaduras ou os 'caçadores de marajás' e 'preparados' de todas as contemporâneas imposturas midiáticas.
Assim como o desenvolvimento da Consciência parece estar nos sugerindo uma mudança no padrão da 'paternidade' no âmbito da família, creio que também o esteja a fazê-lo do ponto-de-vista da Política, âmbito no qual, acredito, nada mais poderão realizar os eventuais (e quase sempre aventureiros) arquétipos do 'Pai Que Vem de Fora'.
Em seu trabalho, ilustrando seus argumentos com o que acontece ao personagem de Charles Chaplin em 'O Garoto' (1921), Luigi Zoja observa que, diferente do que acontece em relação à maternidade, a 'paternidade' não é natural mas, sim, decorrente de uma opção consciente daqueles (homens ou mulheres) que desejam assumi-la. [25]
Acredito que as considerações de Zoja a respeito deste 'Pai Que Vem de Dentro' se apliquem, também, à esfera da Política de todas as nacionalidades 'órfãs' sobre as quais a Sombra do colonizador paira ao modo identificado por Nairo de Souza Vargas: "…padecemos de um mito de impunidade que nos faz um enorme mal. Essa triste e profunda verdade (…) retrata uma má e deficiente estruturação social do arquétipo do Pai. (…) é uma necessidade básica de nossa espécie nos estruturarmos quanto a leis e princípios de valor, padrões de comportamento moral. Desenvolver uma ética é uma necessidade arquetípica, e se isso não for feito, ou for feito de maneira inadequada e distorcida, o ser humano - e num sentido mais amplo, uma cultura - corre sério risco de distorções, desestruturações e ou aniquilamento. (…) São tantas e tão comuns as impunidades em nosso país que parece já temos perdido inclusive a capacidade de nos indignarmos diante de situações absurdas e revoltantes. (…) Políticos e líderes de prestígio são conhecidos não somente pela desonestidade e corrupção, como pela desfaçatez com que mentem e se omitem quando questionados a respeito de suas falhas. (…) temos delinqüências e corrupções em demasia e, o que é mais grave, de maneira freqüentemente impune e sem despertar firme desaprovação e repúdio social, quase que de maneira consentida - na pior das hipóteses, muitas vezes elogiada. (…) grave psicopatia social, resultante de deficiente estruturação patriarcal, que nos torna vítimas de uma cegueira moral que nos leva sombriamente compactuarmos com a desonestidade e a imoralidade, eufemisticamente chamadas de esperteza e malandragem. (…) essa terrível sombra de nossa cultura. É necessário que essa realidade se torne consciente e que as pessoas se dêem conta dessa grave distorção que atinge, lesa e destrói nossa cultura, nos ameaçando a todos. " [26]
Analisando o papel das comunidades urbanas como modelo de organização civilizada a substituir as funções da tribo e do clã, Will Durant pondera: " (...) melhor pagar impostos para um único e grandioso ladrão do que ter que subornar a todos eles." [27]
Refere-se o autor, precisamente, àquelas situações de barbárie nas quais, na ausência do Estado, os limites da Lei e da ordem -ou da Justiça e da disciplina social - variam de acordo com o humor do 'chefe do bando', quase sempre 'o mais forte' (em músculos e/ou posses).
Ao tempo em que escreveu estas palavras (1935), certamente Will Durant não estava pensando na Bósnia da Europa do final do século 20 embora, talvez (por seu conhecimento da História) pudesse prever os Sudões e Etiópias de todas as Áfricas corruptas e famintas do nosso tempo.
Para além dos piratas-do-mar e assaltantes de estrada da Antigüidade Clássica e dos ' condottieri ' da Idade Moderna, Durant possivelmente pensou nos gangsters de Chicago da América de seu tempo. E poderia, até mesmo, citar como exemplo seu contemporâneo ao sul do rio Grande, o capitão Virgulino, o 'Lampião' do nordeste brasileiro.
Entretanto, creio, no início do século passado nenhum historiador seria capaz de supor a extensão da corrupção corporativa que, a partir dos interesses societários do capital e em direção aos interesses pessoais presentes na burocracia do Estado, haveriam de, mundialmente, tornar 'comuns' as práticas que em tempos de neoliberalismo ferrenho haveriam de consagrar, por exemplo, a Enron e a World.com nos Estados Unidos e, em terras brasileiras... bem... de Collor -passando por Fernando Henrique - até Lula... nada ficou provado, não é mesmo? (E não serei eu quem haverá de fazê-lo. Solitariamente.)
Apesar de nos sugerir imaginar um mundo sem fronteiras ou países, John Lennon não nos sugere imaginar um mundo sem Estado.
E nem assim o desejam aqueles para os quais o Estado representa (entre outras coisas) uma inibidora fixação de limites.
Para estes, não é necessário (nem prudente) chegar-se a tanto: à morte do Estado.
Basta, apenas, enfraquecê-lo.
"Diminuição do Estado" não é só um desejo contemporâneo dos sacoleiros que cruzam diariamente a Ponte da Amizade na fronteira do Brasil com o Paraguay.
Na verdade é uma espécie de mantra protetor entoado já desde há muito tempo (desde o século 17) pelos antigos 'sacoleiros' ingleses, assustados com o Leviatã preconizado por Thomas Hobbes, o patriarca do pensamento econômico liberal.
Mas o arquétipo do Estado Gigantesco (o Leviatã de Hobbes) tem mais a ver com o 'pai terrível' dos futuros Estados soviético e nazi-fascistas do que, propriamente, com o 'pai benigno' possível de ser abstraído a partir da configuração política assumida, por exemplo, pelos holandeses contemporâneos de Hobbes, que possuíam em seus quadros administrativos a emblemática figura do Staatholder (o protetor do Estado), um dos quais foi o nosso conhecido Maurício de Nassau.
Fato é que as imbricações entre o Estado e as forças empreendedoras que, nele atuantes lhe emprestam vigor e sustentação, parecem requerer a imposição de limites, estabelecidos pelo primeiro em face da ânsia realizadora dos segundos, para os quais -a ter que optar por entre um 'pai terrível' ou 'benigno'- melhor seria, pudesse ser o Estado a "casa da mãe Joana".
Observe-se que, neste caso e ao leitor interessado, 'ânsia realizadora' pode ser considerada a expressão eufemística que pouco contribui para revelar uma imagem mais ampliada das dimensões históricas que contém (no sentido mais contido da Contenção).
'Fúria' ou 'loucura' mais se adequariam para ilustrar a energia psíquica que, historicamente (e cada vez mais rápido) parece impulsionar a rotação deste 'mundo empreendedor' em torno do qual, parece, pretende-se possa gravitar o Estado contemporâneo.
Antes de prosseguirmos mais amiúde nestas considerações, convém abordarmos (e pelo que segue, verá o leitor a adequação do verbo 'abordar') uma atividade cuja origem, nas brumas do tempo, confunde-se com o comércio. A uni-las, talvez, a Cupidez. Esta, certamente, a responder pela 'Ânsia'; pela 'Fúria' e, finalmente, pela 'Loucura'. [28]

Como poderá perceber qualquer 'homem (ou mulher) de negócios (ou resultados)' pirataria é uma palavra cujo radical grego, em sua morfologia original, para além de 'intento de corrupção', envolve significados caros ao 'mundo empreendedor'. A saber: 'astúcia'; 'intento de sedução'; 'esforço para empreender'; 'experiência'; 'tentação'... [29]
Depois dos gregos; fenícios e cartagineses, talvez o modelo mais antigo e exemplar de pirataria seja o dos vikings, povo nórdico que (nos séculos 10 e 11) pilhando, saqueando e cometendo todos os tipos de ‘andos’ e ‘endos’ imagináveis, acabou por dar origem aos normandos, que viriam a tornar-se um dos (agora respeitáveis) pilares basais da atual Europa Ocidental franca, anglo-saxã e cristã, uma vez que a eles devemos o ‘furor’ que viabilizou (nos séculos 12 e 13) as Cruzadas à Terra Santa, patrocinadas pelos devotos mercadores de Pisa, Gênova e Veneza. [30]
Encerradas as Cruzadas, tal ‘vigor empreendedor’ não ficou ocioso.
Mais uma vez a mercancia haveria de, aos piratas, patrocinar o exercício do pendor natural: através do ‘quem paga mais?’ propiciado pelas disputas bélicas entre as rivais cidades mercantis italianas prosperaram os mercenários 'condottieri ', dos quais o exemplo corporativo mais conhecido é o exército germano-hungaro (do século 14) conhecido como a 'Grande Companhia'.
Já para um exemplo familiar, pode-se mencionar as origens da 'nobre' família Sforza de Milão.
Mas, nenhuma ação de pirataria terá sido mais lucrativa do que aquela empreendida pelos ingleses, holandeses e franceses contra os navios ibéricos vindos do Novo Mundo carregados com os arbóreos, metálicos e comestíveis frutos de seus próprios empreendimentos.
É possível objetar que a pirataria ibérica (sem honra nenhuma) era institucionalizada, financiada com apoio do BNDES e tudo mais, enquanto que o empreendimento franco e anglo-saxão não contava com o beneplácito das nobres autoridades cujos descendentes, em glorioso futuro não muito distante, haveriam de dar suas próprias vidas contra todas as formas de tirania, escravidão e blá, blá, blá.
Muito bem. De fato, dizem que há 400 anos atrás o primeiro Fantasma -único sobrevivente de um ataque de piratas numa praia em Bangala - jurou fazer o mesmo. Mas esta é uma História... em quadrinhos.
O pirata mais conhecido internacionalmente (já em sua época inclusive -século 16) atendia pelo nome de sir Francis Drake.
E a riqueza de muitas das grandes nações atuais e a solidez de seus bancos centrais foi, em boa e significativa medida, construída a partir de atos de pirataria idênticos aos empreendidos por sir Drake.
Como?
Um exemplo: “Em outubro de 1580 Francis Drake atraca em Plymouth trazendo os despojos dos galeões espanhóis pilhados nas costas peruanas e chilenas. O valor desta presa é avaliado em um milhão de libras esterlinas, ou seja, quatro vezes os rendimentos anuais do Tesouro inglês, e dele Elizabeth recebe a parte do leão. (...) A lucrativa expedição suscitou entre os ingleses um vivo entusiasmo patriótico e deu-lhes confiança na sua força.” [31]
Logo em seguida Francis Drake, agora na qualidade de ‘almirante’, recebeu o título honorífico de sir.
A rainha Elisabeth (a primeira) era cotista assídua dos grupos de investidores organizados para financiar empreendimentos semelhantes aos de Drake e outros sires -como Walter Raleigh e John Hawkins, sobre cujas habilidades funcionais nos informam as páginas da História politicamente correta: 'corsário' ou 'aventureiro'.
Compreendo e aceito imperfeitamente que o saque mais sórdido, o crime mais bárbaro, o roubo mais flagrante de ontem tenha se transformado, hoje, em uma posse pública ou privada nobre e legalmente constituída.
É isso mesmo. Foi assim 'que foi'.
E não imagino como poderia ter sido diferente.
Contudo, isto não significa que assim sempre será.
Sabemos que com o passar do tempo, ser pirata com olho vazado, perna de pau e papagaio no ombro, acabou por tornar-se muito mais ‘bandeiroso’ do que o crânio e a tíbia que lhes registrava a marca.
Sabemos que pirata, hoje "... não existe mais. Agora já não é normal. ... (é) regular profissional. ...com contrato, com gravata e capital. ...não espalha. Aposentou a navalha." [32]
Sabemos que reunidos em suas contemporâneas tabernas, os modernos 'capitães' adoram ser reconhecidos pelos jargões que melhor lhes define o instinto que (assim acreditam) lhes é básico: 'predators'; 'killers'...
Entretanto...

Sobre os diversos fatores que contribuíram para a existência e o desenvolvimento do ser humano na Terra, existem muitas teorias a respeito.
Evidentemente, não faz parte do escopo deste trabalho analisar se "foi Deus quem fez você" -como acreditam, entre outros, George W. Bush; o compositor Luís Ramalho e a cantora Amelinha; ou se -como postulava o Dr. Spock - 'nada mais do quê' somos unidades de carbono que, com o passar d'O Tempo, foram se 'especializando' ao sabor d'O Acaso.
Sobre a autoria ('Quem?') e/ou a intencionalidade ('por que?') da Criação nada sabemos. A O Certo. Acho.
Porém -penso que sem prejuízo do debate entre as torcidas uniformizadas - sobre o modus operandi ('como?') da Criação, tanto os registros ditos 'sagrados' como os ditos 'técnicos' (ou 'científicos') nos dão conta do aparecimento tardio de nossa espécie.
E relativo a esta questão, sinto-me mais a vontade para, aqui, trazer ao leitor considerações advindas do ponto-de-vista dito 'técnico'.

Algumas teorias consideram ter sido preponderante para o desenvolvimento da raça humana o aumento da massa encefálica (o 'disco rígido') dos proto-hominídeos que, a partir de uma dieta rica em proteínas, possibilitou a expansão da inteligência.
Pode ser.
Fato é: não importa se a partir do consumo contínuo e sistemático de picanha ou cogumelos alucinógenos, logo após adquirí-la, nossos ancestrais começaram a expandir e (at last but not at least) expressar uma Consciência que, a partir de Si mesma, passou a diferenciar o que haveria ou não de ser humano.
E assim, com nenhuma isenção e pouca modéstia, algum tempo depois passamos a chamar os frutos desta habilidade de inteligência.
Contudo, na escala do Tempo Geológico de nosso planeta -mais precisamente dos 600 milhões de anos a partir dos quais iniciou-se a ampla diversificação das espécies de vida - os (estimados) 130 mil anos de existência da espécie homo sapiens-sapiens não nos permite nenhum grau de arrogância quanto a capacidade desta (auto proclamada) inteligência em nos auxiliar a prosseguir sobrevivendo.
Sejamos humildes: em sua forma atual o tubarão, por exemplo, está aqui há já 150 milhões de anos (por baixo).
'-Perfeito! Eis aí um predador soberbo! O killer de todos os 'killers'!', ouço dizer meu Jack Welch. [33]
Então, talvez mais adequado ao propósito deste trabalho, citemos outro exemplo: o cavalo, uma espécie que (em seu modelo mais atual, o Equus caballus) -com os requisitos da 'boa apresentação'; 'capacidade de trabalho' (ou 'domesticação') e 'looking forward' tão apreciados por todos os head hunters do mundo - começou a desenvolver-se a partir de 1,5 milhões de anos atrás. [34]
Por entre tubarões e cavalos, observemos que muitas outras espécies de vida sem medicina 'avançada' ou GPS, já há muito mais tempo do que nós tem conseguido, com inegável sucesso, desempenhar a tarefa de sobreviver.
Por inegável sucesso gostaria de significar, em especial, a capacidade de uma espécie sobreviver sem colocar em risco a existência de outras.
Se houver de fato uma correlação forte entre o que consideramos ser inteligência e capacidade de sobrevivência, o pouquíssimo tempo que levamos para ameaçar de extinção todas as espécies (a nossa inclusive) está a nos sugerir que tal correlação pode ser de ordem inversa.
Ou, talvez, não sejamos (ainda) tão 'inteligentes' como nos julgamos. [35]
A conferir.
Não. Não estou sugerindo que é melhor 'levar uma vida-de-cachorro' ou que voltemos a 'ser índio'. (Sobre esta última possibilidade, já disse o jornalista Washington Novaes: "Não temos mais capacidade para tanto.")
Com as considerações acima pretendo, apenas, emoldurar o último quadro deste trabalho.

Os registros mais antigos de primeiras plantações e domesticação de animais indicam que nosso atual modo de vida (dito civilizado ) tem, 'somente', 8 mil anos.
Ainda que (exata mente) jamais venhamos a saber ?o quê? contribuiu para nos tornar tão singulares entre a Criação, uma coisa parece certa: o ser humano só existe como tal porque se originou a partir de uma espécie que (intuitiva mente) andava em bando.
Não sei se algum proto-homínideo cansado de ver seus colegas serem trucidados a cada 'descida da árvore' acabou por concluir (marxista mente dirão alguns) que 'o povo unido jamais seria vencido'.
Mas não creio ser um disparate pensar que, tão logo colocavam os pés no chão, individualmente, os primeiros nem-macacos-nem-homens não eram páreo para um único tigre, urso, leão ou qualquer outro de seus melhor-equipados predadores.
Ainda assim, de algum modo, garantindo a sobrevivência e o desenvolvimento posterior da espécie, a união fez a força.
E creio ser este o motivo pelo qual o personagem representado por Russell Crowe em ‘O Gladiador’ sugere a seus companheiros colocados 'para o que der e vier' no centro da arena do Coliseu: ‘fiquemos juntos.’ Aliás essa sugestão, repetida o tempo todo pelo principal protagonista, me parece ser a mensagem do filme.
Mas, fora das telas (para além das projeções) não é esta a sugestão que os humanos estão a receber de suas alfa-lideranças nos últimos... digamos, brasileira mente 500 anos. Ou 250, mundial e iluminística mente.
"O sistema capitalista global gerou um campo de jogo muito desigual. A distância entre ricos e pobres está aumentando. Isso é um perigo, pois um sistema que não oferece alguma esperança e benefícios aos perdedores, corre o risco de ver-se dilacerado por atos de desespero." [36] "O individualismo agressivo, esta secreção purulenta da sociedade moderna, não deixa ao perdedor, ao inferiorizado, senão a alternativa de massacrar a própria auto-estima. A individualização do fracasso não permite ao derrotado compartilhar com os outros um destino comum provocado pela desordem do sistema social. O reconhecimento social é uma preciosa forma de remuneração não-monetária. E essa retribuição torna-se cada vez mais escassa quando o desemprego e a desigualdade prosperam em meio à uma eufórica comemoração do sucesso do indivíduo. A perda da auto-estima se transfigura em ressentimento e daí, as explosões de racismo, de xenofobia, de recusa do 'outro, seja ele quem for." [37] "As regras do Jogo são as da acumulação de riqueza obtida no mercado mediante a competição feroz entre empresas, Estados e indivíduos. Em sua roupagem neoliberal, este jogo pressupõe a violação permanente e sistemática das regras, no estabelecimento de relações entre o Poder e o Dinheiro destinadas a remover quaisquer obstáculos à acumulação comandada pela grande empresa e pelo capital financeiro internacionalizado, sempre apoiados na força militar e política do Estado Imperial ." [38]
Entretanto, observe-se: “...não há nada de errado com as regras do mercado em si. São os jogadores que estão usando essas regras em benefício próprio. Então, se existe algo de errado, está do lado dos jogadores, não das regras. As regras estão disponíveis para as pessoas que querem fazer o bem para a sociedade, que usam essas regras e conseguem seus objetivos.” [39]

Como bem procuram ilustrar os mitos de Prometeu; Ícaro e, mais modernamente, Fausto, noção de limite não parece ser uma aquisição fácil para a consciência que consagrou alexandres e carlos magnos; fernandos cortez; j.p morgans e milhares de outros, maiores ou menores santos e berlusconis tutti quanti 'construtores de Impérios', à sombra dos quais (no sentido mais junguiano da Sombra) se desenvolve o que, hoje, chamamos de 'nossa realidade contemporânea'. [40]
Porém, ?quantos de nós podem ver a Si-mesmo representado nesta realidade, de modo a considerá-la como 'sua '?
Ou, em outras palavras: ?a realidade contemporânea traduz, de fato, nossas expectativas pessoais?
Não me refiro, é claro, à realidade de nossos anéis mesquinhos que, a despeito de muito os desejarmos, estamos sempre dispostos a entregar alguns sob pena de perdê-los todos.
Pretendo significar realidades menos íntimas (mais estranhas e coletivas) como, por exemplo, aquelas capazes de se constelarem alheias aos desejos de milhões de seres humanos à elas submetidos.
Refiro-me, mundialmente, à maioria dos europeus que -apesar de viverem sob regimes 'democráticos' (assim nos informam...) - sente-se incapaz de fazer valer sua vontade de não-envolvimento no (atual) conflito entre o Iraque e os Estados Unidos.
A maioria dos ingleses, espanhóis, italianos, alemães, japoneses, coreanos... não deseja ver suas tropas envolvidas nesta guerra. No entanto -da Inglaterra, da Espanha, da Itália, da Alemanha, do Japão, da Coréia... , lá estão 'suas' tropas. Ainda assim, dizem, estes países são democráticos.
Brasileira mente e por exemplo, tenho certeza de que -à exceção dos beneficiados - não há um único dos meus compatriotas a endossar as muitas perdulárias e nababescas benesses conferidas aos ocupantes de cargos públicos nos Três Poderes da República, a começar pela suntuosidade e aparato das instalações nas quais operam e que, antes de serem poucas e imponentes, deveriam ser muitas e eficientes. Ainda assim, dizem, o Brasil é democrático.
Ora, se a representatividade a partir da qual busca-se construir a realidade das atuais democracias está a apresentar-se de modo escamoteado, não será surpreendente se tal 'realidade' -pelo restrito e tacanho de suas dimensões - mostrar-se incapaz de fazer frente aos desafios da sobrevivência coletiva. Donde, segue: sob pena de assim estarmos comprometendo a existência de nossa espécie, esta 'realidade' pode (e deve) ser modificada.
'- Pronto! Mais um que vai apresentar a cura milagrosa para os males do Mundo...'
Não, não vou.
“A verdade final, se existe tal coisa, exige o concerto de muitas vozes. Nenhum sistema pode prescindir de uma hipótese geral que dependa do temperamento e de pressupostos subjetivos do autor e, ao mesmo tempo, de dados objetivos. (...) pois a ‘equação pessoal ’ dá colorido à maneira de ver.” pondera Jung, aqui tantas vezes citado.
Procurando por toda a História... uma Revolução... que tenha, "de uma hora para outra" (não importa quantas décadas possa ter essa hora),... "dado certo" ...?...
?É possível identificar alguma? [41]
De minha parte continuo buscando e, até agora (2005), não consegui.
Procurei a partir do Egito de Akenaton há 3300 anos atrás (lugar e época onde -tal como no Islã de hoje- política e religião eram uma única e 'mesma coisa').
Fui na Esparta de Agis IV por volta de 250 a.C; tentei encontrar uma na Roma dos irmãos Gracco (os Kennedys de 150 a.C).
Olhei para a França do final século 18 e, chegando mais perto, revisitei a Rússia do começo do século 20.
Nada.
Nem mesmo a revolução dos comerciantes ingleses do século 17 (a 'Gloriosa') ou a dos proprietários rurais estadunidenses do século 18 me pareceram poder servir de exemplo.
As Coisas não mudam 'de cima para baixo'.
Mas, também, parece que não mudam 'de baixo para cima'; 'da esquerda para a direita' ou 'da direita para a esquerda'.
As Coisas parecem mudar a partir de todas as direções.
E aos poucos. Lenta mente.
' -Ai, que bom! ', ouço dizer, aliviado, o meu banqueiro.
Mas não estou escrevendo para acalmá-lo.
Estou apenas reconhecendo a transformação morosa de um Inconsciente que, em se tratando de 'mudança', se modifica com muito mais vagar do que deseja minha Consciência, sobre tudo apaixonada e irrequieta. ('-Beam me up, Kirk.', ouço dizer meu Spock)
Torço pelos inácios, nestores, hugos, ivos e michelles de todos os cones e continentes. (Não importa o quanto possam ou venham a errar. Tal oportunidade jamais lhes foi concedida. E, mais a mais, necessitariam de 500 anos para poder igualar a marca de seus adversários).

Revoluções (i.e, transformações) são processos.
O que nos parece ser 'revoluções-de-uma-hora-para-outra', talvez seja a menor e mais efêmera parte de um processo a ultrapassar em muito a existência de todos os seus protagonistas.
E, mais ainda, quase sempre as tentativas históricas de fazer com que 'de-uma-hora-pra-outra' as mudanças se tornem permanentes, costumam resultar naquilo que os antigos gregos chamavam de enantiodromia, ou seja: a capacidade de nos transformarmos naquilo que perseguimos.
César; Cromwell; Napoleão; Stalin e Mao Zedong são bons exemplos do fato. Entre todos, porém, talvez o mais exemplar seja Paulo de Tarso, o rabino feroz transformado em evangelista.
Sobre o processo de transformação histórico nas sociedades humanas, cabe mencionar algumas ponderações de um professor de Filosofia apaixonado pela História:
"... é o lento pulsar de coração do organismo social -uma grande (e natural) sístole e diástole de concentração de riqueza e explosão revolucionária (...) a períodos de escassez, onde o perigo comum da fome faz unir o individual ao coletivo, seguem-se períodos onde a abundância se faz presente; o perigo esmorece; a coesão social se afrouxa e se fortalece o individualismo", então, "a corrida pela riqueza, bens e poder recomeça e a pirâmide da competência é reconstruída uma vez mais (...) de algum modo, o 'mais hábil' consegue obter o solo mais fértil; o melhor espaço; a parte-do-leão e, logo, ele será forte o suficiente para dominar o Estado; reescrever (ou reinterpretar) as Leis e, passado algum tempo, a desigualdade será tão grande quanto antes já houvera sido." [42]
Sobre a natureza de algumas transformações históricas, é ilustrativa a ponderação de Umberto Eco, expressa no final dos anos 90:
"- Sim. De fato a Igreja toma suas decisões mais lentamente do que a I.B.M, que muda seus softwares a cada quinze minutos."
Penso que os sentimentos de Umberto Eco em relação à Igreja não diferem dos meus em relação a meu banqueiro: admiração e respeito misturados a enormes reservas (reservas críticas).
Admiração e respeito pela posse disciplinada das virtudes que, a sacerdotes e financistas, conferem a necessária Prudência para a guarda dos tesouros a eles confiados.
Enormes reservas por quanto de tal Prudência, muitas vezes, tende a brotar um salomônico desdém pelo que acontece aos "lírios do campo".
Entre a necessidade de mudança e a permanência, instala-se o paradoxo revolucionário.
Quanto mais se modifica, mais se retorna à condição original, diz um provérbio francês (?do século 19?).
No momento em que este trabalho se encerra (janeiro de 2006), encontra-se no comando do Poder Executivo do Brasil (pela primeira vez em sua História) um dirigente oriundo das camadas populares.
Tal fato, inegável, representa uma conquista da política brasileira. Uma transformação. E, portanto, uma revolução.
Acredito que aos futuros historiadores da História brasileira não escapará a observação de que, entre outras coisas, a ascensão inédita de um não-membro das elites dirigentes ao Poder Executivo da República somente se fez possível pelo absoluto esgotamento da crença na alternativa de 'saída' proposta pelo pensamento neoliberal, (feroz mente) vigente em todo o mundo desde a ascensão de Margaret Thatcher ao poder na Grã-Bretanha em 1979, quase ao final da 'fracassada' administração democrata de Jimmy Carter nos Estados Unidos.
Acredito também que, inseparável de qualquer análise profunda destes eventos, muito mais ainda deverá ser escrito e analisado a respeito do impacto da Crise do Petróleo (iniciada em 1973) no desenvolvimento de um Si mesmo cujo espectro de Consciência -a partir do vermelho de Proudhon e Marx, passando pelo azul de Keynes - chegou aos 'verdes e ecológicos' dias de hoje, ainda procurando o significado (espaço) e o sentido (direção) de sua Revolução Industrial.
Se desde 'um pouco depois' ou 'muito antes' não importa (para uma metáfora): das ruas de Paris em Maio de 68 até as contemporâneas ruas de todas as organizações mundiais do Comércio, continua a vagar um espírito ocidental ainda jovem e irresoluto, porquanto incompleto no desenvolvimento de uma totalidade que apenas principiara a buscar.
Remonta a meados da década 70 a 'nouvelle vague' de unilateralidade da Consciência Ocidental que -contrapondo à busca pela 'mística do Oriente' a 'mística do consumo' - passou a turbinar o "desejo de posse, constantemente renovado pelo progresso técnico" [43] a sustentar de modo permanente a promessa de atender necessidades jamais satisfeitas, porquanto o cumprimento de tal promessa implicaria na morte do sistema.
E assim, chegamos aos dias de hoje onde "no countries, above only sky" ; única mente e 'de cima para baixo', encontramos a atual 'globalização' buscando realizar às avessas o quê John Lennon, com outros propósitos, imaginou.
Chegamos nós também. Brasileiros.
Chegamos ?
De acordo com a 'leitura' deste trabalho melhor seria, talvez, dizer: e assim fomos arrastados.

Ainda sem termos resolvido questões do Passado... ?haverá possibilidade de algum dia concretizarmos nosso Si mesmo coletivo e, dessa maneira -realizando uma outra mentalidade (isto é: um outro modo de ser ) - oferecermos uma contribuição genuína para a sobrevivência de nossa espécie?
Bem, sobre isto é impossível qualquer certeza. Somente palpites. Acho.
Então, assim palpitando, creio estarmos todos a depender de coisas como, por exemplo: a T.V que assistimos; os jornais e as revistas que lemos; as conversas que 'alimentamos'... enfim, da Consciência que desejamos desenvolver.
E neste sentido, Carnaval e jabuticaba não são as únicas coisas que só existem no Brasil e "dão certo".

A despeito da sistemática desconstrução da alma brasileira a que se entregam boa parte dos nossos 'formadores de opinião' (muitos deles, atual mente, dividindo um tempo inconstitucional a transcorrer impune por entre: 1) a gestão de suas empresas de comunicação e 2) a tarefa congressual de criar as leis que nos governam), da tecnologia de construção de fortes (de pedra!) na Floresta Tropical -passando pela sandália Havaiana - até a perfuração de poços em águas profundas, não pretendo usar este espaço final para ficar 'desfiando' as mais diferentes áreas do saber nas quais, ao longo dos séculos e para além da Música e do Futebol, a excelência luso-afro-brasileira tem dado provas de sua concretude. [44]
Entretanto, o mérito de muitas destas realizações, tal como a 'grandeza territorial do Brasil'; 'a beleza de suas matas'; 'a exuberância do Amazonas'... pertence a O Acaso e não a um esforço contínuo de sucessivas administrações de governos dispostos a encerrar a vergonhosa política de exclusão social inaugurada em 22 de abril de 1500.
Portanto, somos, ainda hoje, incompletos em nossa totalidade anímica.
De fato o Brasil é um país ocioso: tornamo-nos tri, tetra, penta -em todos os campos - utilizando apenas um terço de nossa capacidade operacional.
Após 5 séculos somos ainda a realização parcial, ínfima, medíocre, de uma 'alma '... bela.
O impedimento da realização plena de uma 'alma coletiva', não é somente mais um dos crimes do homem público corrupto -a exibir-se para as câmeras sorridente e brilhantoso em seu bem-cortado Armani adquirido às expensas de milhares de meninos e meninas a desistir da escola precária e imunda. É, também, o preço a ser pago pela sujeição a interesses e formas de ser dissociadas e dissociantes da realidade anímica local.

Em sentido amplo é possível dizer: "economia é tudo"... considerando que, como disse Celso Furtado, "economia não é só finanças".
Economia vem do grego 'ekos'=ambiente e 'nomos'=organizar, significando então 'arrumar a casa'; 'botar a casa em ordem'.
E -como bem o soube o governo Dutra no Pós-Guerra - 'dinheiro em caixa', embora nos possibilite, não nos garante a 'arrumação da casa'.
Para 'botar a casa em ordem' é preciso algo mais além de superávits.
Individuais e coletivos, quaisquer e quantos possam ser os mais desse algo necessário, todos parecem se realizar no sentido da concretização de um modo de ser cujo desenvolvimento não interessa aos poucos beneficiários da atual, e crescente, desordem internacional.
Sobre esse modo de ser falam as muitas 'vozes' citadas ao longo este trabalho.
Uma destas 'vozes' -a do muito criticado (e, ao que parece, pouco estudado) autor de 'O Declínio do Ocidente' - Oswald Spengler, oferece uma preciosa contribuição para a Consciência de um país que, cansado de esperar, parece ter perdido a crença em seu Futuro. A saber:
"O Passado é o Concretizado. O Futuro é o Possível.
A forma na qual está se concretizando a realização do Possível - o significado da Vida, é o Presente." [45]
Imagine.

Foi no sentido de contribuir para a concretização de um Possível almejando realizar a Si mesmo que ousei tornar pública esta pequena 'leitura' sobre a alma brasileira.

Fim.
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[1] citado In: canção 'Im ein ani li ' de Fortuna (CD 'Cantigas' título 16 Fortuna Produções Artísticas São Paulo, SP 1994)
nota: Embora a fonte da citação nada mencione a respeito, convém deixar registrado a existência de dois renomados rabinos Hillel: o primeiro, e mais famoso, viveu na Palestina durante o período compreendido entre 50 a.C e 25 d.C. O segundo Hillel (Ben Samuel), viveu na Itália e na Espanha durante os anos compreendidos entre 1220 e 1295. Pelos atributos biográficos a que temos acesso, acredito que as palavras da epígrafe acima sejam da autoria do primeiro Hillel, conhecido, entre outras coisas, por dedicar-se a uma apreciação sobre os aspectos sócio-econômicos da vida em seu tempo. (ver 'Hillel' In: The New Enciclopaedia Britannica vol. 5 pp. 928/929 15th. ed. University of Chicago 1993)

[2] In: livro do Êxodo 3, 13-14 p. 84 Bíblia Sagrada ‘Antigo Testamento’ 13a edição ed. Vozes, Petrópolis, RJ 1990

[3] Tzu, Lao: ‘Tao Te King’ v. 1 p. 37 3a. ed. Pensamento São Paulo, SP 1993

[4] In: ‘Bhagavad Gita’ v. 54 Cap. 11 'A Forma Universal' p. 147 trad. Duarte, Rogério ‘Canção do Divino Mestre’ ed. Companhia Das Letras, 1a. reeimpressão, São Paulo, SP 1998

[5] In: 'Bhagavad Gita' v. 61 Cap. 18 'A Perfeição da Renúncia' trad. Thakura, Paramahamsa 1a. edição, Instituto Ratna de Cultura Indiana, São Paulo, SP 1995

[6] In: Werá Jecupé, Kaka 'A Terra dos Mil Povos - História indígena do Brasil contada por um índio' p. 11 ed. Fundação Peirópolis São Paulo, SP 1998

[7] ver: ‘A Doutrina de Buda’ p. 87 3a. ed. trad. bras. Bukkyo Dendo Kyokai Japan 1982

[8] ver: op. cit. p. 81

[9] In Jung, C.G. ‘Psicologia da Religião Ocidental e Oriental ' vol. XI Obras Completas ed. Vozes, Petrópolis, RJ 1983

[10] In Jung, C.G. ‘Freud e a Psicanálise’ vol. IV p.328-329 Obras Completas ed. Vozes Petrópolis, RJ 1989

[11] Belluzzo, Luiz Gonzaga In: revista Carta Capital n. 371 box p. 40

[12]
In: Davies, Hunter ‘The Beatles– the authorised biography', cap. 31 ‘John’, p. 303 , William Heinemann , London, 1968

[13] "Fico feliz por ter conseguido (amealhar uma fortuna) ainda jovem. (...) Seria terrível passar a vida inteira tentando conseguí-la para, ao final, descobrir que ela não significa nada."
trad. "I'm pleased I made it young. (...) It would have been terrible to spend your whole life before you finaly make it, justo to find out it's meaningless."
In: op. cit p. 306
[14] livro do Gênesis 9,7 ‘Bíblia Sagrada’ p. 37 ed. Vozes Petrópolis, RJ 1990

[15] -sobre o conceito segundo o qual tanto a Primeira como a Segunda Guerra Mundial constituem uma única e mesma guerra ver: Hobsbawm, Eric 'Era dos Extremos -o breve século XX 1914-1991' p. 62 Companhia Das Letras 2a. edição São Paulo,SP 1995
-sobre a questão do declínio da autoridade paterna,haveremos de nos deter mais adiante.

[16] In: Capra, Fritjof: ‘Sabedoria Incomum’ pp. 16 e 17 ed. Cultrix São Paulo, SP 1990

[17] ver op. cit p. 10 1a. edição ed. Axis Mundi São Paulo, SP 2001

[18] O Clube de Budapeste (
http://www.clubofbudapest.org) é "uma associação informal de pessoas criativas nos diversos campos da Arte e Literatura e nos domínios espirituais da Cultura, dedicadas à proposição de que somente mudando a nós mesmos podemos mudar nosso mundo - e de que, para mudar a nós mesmos, precisamos do tipo de 'insight 'e percepção que a Arte, a Literatura e os domínios do espírito tão bem nos proporcionam." (op. cit p 221)
São Membros Honorários do Clube de Budapeste, entre outros: Maurice Béjart; Arthur C. Clarke; Dalai Lama; Milos Forman; Peter Gabriel; Zubin Metha; Yehudi Menuhin; Nicholas Negroponte; Gilo Pontecorvo; Jean Pierre Jampal; Mstislav Rostropovich; Liv Ullmanm; Peter Ustinov e Mohammed Yunnus.

[19] ver: op. cit pp. 192 a 206 ed. Axis Mundi 1a. edição São Paulo, SP 2005

[20] ver op. cit. p. 216

[21] textos em versos e prosa contendo a sabedoria dos Vedas, a mais antiga (c. 1000 a.C) das literaturas sagradas da Índia.

[22] In: Marx, Karl e Engels Friedrich 'Manifesto do Partido Comunista -1848' pp. 28/29 Col. L&PM Pocket vol. 227 L&PM Editores Porto Alegre, RS 2001

[23] ver op. cit pp. IX a XV da edição Publifolha/Editora Schwarcz Ltda. São Paulo, SP 2000

[24] Relativo a uma análise da Arquitetura Contemporânea, gostaria de remeter o leitor para a leitura de uma entrevista do arquiteto italiano Paolo Portoghesi, concedida ao jornalista Maurício Santana Dias e publicada na página 5 do suplemento Mais! do jornal Folha de S.Paulo edição de Domingo, 9 de dezembro de 2001.
nota: Aos leitores interessados que estiverem impossibilitados de acessarem o arquivo da Folha pela web, comunico que, caso o desejem e assim me solicitarem, poderei enviar-lhes por e-mail (em doc. anexo) o conteúdo desta entrevista.

[25] ver: Zoja, Lugi 'O Pai - História e psicologia de uma espécie em extinção' pp. 21 a 26 ed. Axis Mundi 1a. edição São Paulo, SP 2005

[26] In: 'Impunidade-Imunidade e o arquétipo do Pai entre nós' pp. 107/ 110 de Junguiana, revista da SBPA n.18 'Mitos e Lendas da América Latina'
[27] In: Durant, Will ‘The Story of Civilization’ vol.I ‘Our Oriental Heritage’ p. 25 Easton Press, Norwalk, Connecticut 1992
trad. [ "Men decided (...) better to pay tribute to one magnifecent robber than to bribe them all."]

[28] "Ao contemplar os objetos a eles nos apegamos
e do apego vem a Luxúria e da Luxúria vem a Ira.
Da Ira vem a Ilusão e a Ilusão embaça a Memória.
A Memória confusa dispersa a Inteligência e quando essa se destrói cai-se, de novo, no poço. (...)
(...) Ira, voraz devoradora de tudo.
Da consciência, a Luxúria é eterna inimiga, pois nunca se satisfaz e arde como fogo.
A mente e os sentidos são moradas da Luxúria, que cobrindo a consciência do ser, o desnorteia.
Assim, subjugue-a desde o princípio controlando os sentidos.
Os sentidos se situam acima dos objetos.
Acima dos sentidos está a Mente.
Acima da Mente, está a Inteligência.
E acima da Inteligência está a Alma (ou Eu).
Deve por isso a pessoa, Árjuna de braços fortes,
domar o eu inferior e vencer a Luxúria,
esse inimigo terrível."
In: Bhagavad Gita Cap. 2 vs. 62/63 p. 60 e Cap. 3 vs. 37 a 43 -trad. Rogério Duarte 1a. reimpressão Companhia das Letras São Paulo, SP 1998

[29] peira-peira=prova, astúcia, intento de sedução, ponta de espada;
peiraw-peiraw=intentar, esforçar-se, empreender;
peirasix-peirasix=intento de corrupção, experiência;
peirasmoz-peirasmóz=tentação;
peirathx-peirathx=pirata;
peirathrion-peirathrion=guarida de piratas;
peirahtizw-peirahtizw=provar alguém, medir-se com alguém
extraído de Pereira, Isidro s.j 'Dicionário grego-português/ português grego' 6a. edição Livraria Apostolado da Imprensa Porto, Portugal 1984

[30] ver: Jones, Terry e Ereira, Alan ‘Crusades’ pp. 2-3 Penguin Books, London, 1994

[31] In Chastenet, Jacques ‘A vida de Elizabeth I de Inglaterra’ p.158 Círculo do Livro, Sp, SP 1973

[32] In canção ‘Homenagem ao Malandro’ de Chico Buarque

[33] [ "Jack (Welch), filho de uma mãe dominadora, produto de uma educação rigorosa, foi criado para competir duro, ser impaciente ao extremo e temperamental como um ‘napoleãozinho’(…) Assumiu a presidência da G.E em 1981. Nos 20 anos que esteve no comando, Jack demitiu 100 mil empregados, mandou gente para hospitais psiquiátricos e (…) elevou o lucro da G.E de 1 US$ bi. para 12 bi. Foi o ídolo de Wall Street e dos gerentes de todo o mundo. Em 1999 a revista Fortune o elegeu O Gerente Do Século."]
In: revista Carta Capital n° 162 p.68 24 de outubro de 2001 ref. ao livro ‘Jack, definitivo - segredos do executivo do século.'

[34] Estima-se que os primeiros proto-cavalos começaram a surgir há cerca de (não menos) 38 milhões de anos. Já para os primeiros proto-hominídeos, as estimativas apontam para 8 milhões de anos.

[35] Observe-se que inteligência pressupõe capacidade de 'interpretar, discriminando ou diferenciando', atitude que para a mentalidade oriental clássica constitui um equívoco; e para os indígenas do Novo Mundo 'a wonder' (um espanto), como diria William Frederick (Buffalo Bill) Cody.

[36] George Soros In "A Crise do Capitalismo" ed.Campus 1999 cit. Josias de Sousa In: jornal Folha de São Paulo Domingo 16 de setembro de 2001

[37] Belluzzo, Luiz Gonzaga In: 'Ensaios sobre o capitalismo no século XX’ pp. 94/95 ed.Unesp, São Paulo, SP 2004

[38] Belluzzo, Luiz Gonzaga In: revista Carta Capital n° 152 p. 35 01 de agosto de 2001

[39] Muhammad Yunus In: ‘A lógica bancária posta do avesso’, revista Carta Capital n.275 p. 13 28 de janeiro de 2004

[40] Para uma análise comparativa destes três mitos ver: Zoja, Luigi ‘A História da Arrogância’ pp. 137 a 151 Axi Mundi Editora, São Paulo,SP 2000

[41] Pelo tempo de desenvolvimento de suas doutrinas, o budismo e o cristianismo não me parecem ter sido 'revoluções-de-uma-hora-para-outra'. Haja visto, inclusive, a peculiaridade comum a ambas as doutrinas de seus pressupostos não terem 'caído no agrado' (imediato, ao menos) das populações de seus locais de origem: Buda (século 6 a.C) não 'pegou' na Índia assim como Jesus não 'pegou' em Israel, cuja atormentada existência, confesso, me impossibilita de (até o presente momento) formular um juízo a respeito do sucesso da revolução monoteísta de Abraahão.
Já as origens do hinduísmo estão de tal modo perdidas nas brumas do tempo que, acredito, tornam levianas quaisquer considerações a respeito de seu desenvolvimento.
Da mesma forma penso em relação ao taoísmo, embora seja possível identificar a existência de Lao Tzu 'por volta' do século 6 a.C.

[42] In: Durant, Will ‘The Story of Civilization’ vol.I ‘Our Oriental Heritage’ nota* pp. 18/19 Easton Press, Norwalk, Connecticut 1992
trad. [ " ...in times of dearth, when the commom danger of starvation fuses the individual into the group. Whem abundance comes, and the danger subsides, social cohesion is lessened, and individualism increases (...) Then the race for wealth, goods and power begins again, and the pyramid of ability takes form once more (...) the abler man manages somehow to get the richer soil, the better place, the lion's share; soon he is strong enough to dominate the state and rewrite or interpret the laws; and in time the inequality is great as before. (...) economic history is the slow heart-beat of the social organism, a vast systole and diastole of naturally concentrating wealth and naturally explosive revolution." ]

[43] In: 'Theodor W. Adorno - Textos Escolhidos' p. 10 ed. Nova Cultural São Paulo, SP 2005

[44] Dentre alguns dos aspectos (genuína mente) realizados da 'alma brasileira' encontramos, também, a engenhosa modalidade de financiamento conhecida como consórcio. Contudo, muitos poderão objetar que "consórcio nem sempre dá certo". Não sei se tal avaliação é correta, uma vez que outras modalidades clássicas de financiamento também costumam "não dar certo". De qualquer modo, mais do que a o comportamento de seus agentes, neste caso interessei-me por registrar (em nota) a 'idealização'.

[45] In: Spengler, Oswald ‘The Decline of the West’ vol. I ‘Form and Actuality’ p. 54 21th. Reprint Alfred A. Knopf Publisher, N.Y 1994
trad. [ " If, now, we designate the Soul as the possible and the World on the other hand as the actual (...) we see life as the form in wich the actualizing of the possible is accomplished. With respect to the property of Direction, the possible is called the Future and the actualized the Past. The actualizing itself, the centre-of-gravity and the centre-of-meaning of life, we call the Present. 'Soul' is the still-to-be-accomplished, 'World' the accomplished, 'life' the accomplishing." ]

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2 Comments:

Blogger y0w39 said...

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Blogger Cineasta 81 said...

Sobre o epílogo,
nós não nascemos apenas para nós mesmos. Devemos servir também ao mundo.

Sobre o resto...
Obviamente eu não lí tudo.

11:50 AM, October 25, 2007  

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